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Bullying: Pais coniventes, escolas despreparadas e alunos sofrendo

Caso do adolescente que matou dois colegas e feriu quatro após abrir fogo contra eles em uma escola em Goiânia trouxe à tona uma discussão que nem deveria ter saído de cena. O bullying. Segundo pessoas próximas do adolescente, ele seria vítima de brincadeiras e piadas de alguns colegas que o chamavam de “Fedido” e no dia do ataque, ele teria recebido um desodorante de uma das vítimas.

A tragédia fez com que as pessoas falassem sobre o tema. “Eu sofri muito na escola, por causa do sobrenome, por causa do cabelo e porque era uma aluna pobre, bolsista, no meio da classe média. Eu nem contava para minha mãe, sofria calada”, conta uma mulher que prefere não se identificar.

“Apanhava de um menino quase todo dia, ele sentava atrás de mim e puxava meu cabelo, quando passava do meu lado dava um soco no meu braço. Muitas vezes eu tive vontade de juntar toda aquela raiva e frustração e arrebentar aquelas crianças que faziam aquilo comigo. Só nunca tive coragem, porque minha mãe não tinha condições de pagar a mensalidade e eu tinha medo de perder a bolsa”, narra sobre o que acontecia.

O nome ser suprimido da matéria, é até para proteger o filho, que sofreu o mesmo problema recentemente. “Ele sofria bullying na escola, na educação infantil. Todos os dias ele apanhava do mesmo colega, chegou ter as costas perfuradas por três colegas que usaram galhos secos que estavam caídos no pátio, todos eles eram crianças de 5 anos”, revolta-se.

Pais são coniventes com agressores

“Um dia fui buscá-lo e o menino havia quebrado o dente, empurrando ele com os pés do escorregador. Chamei o pai do menino na coordenação, sabe o que ele me disse? Que aquilo era brincadeira de criança e que o filho dele também apanhava, mas nem por isso ele ia na coordenação reclamar. Sabe o pior de tudo?? O pai do menino também era professor infantil. Felipe faz acompanhamento psicológico até hoje. Na época ele parou de comer, não queria ir a escola, roía as unhas até sangrar, vivia deprimido, não era uma criança feliz. Tudo porque ele era perseguido diariamente na escola”, narra.

As coisas só melhoraram quando ela mudou o menino de escola.

A casa de bonecas

A filha de Janis (nome fictício a pedido da entrevistada) sofreu episódios de bullying que marcaram tanto a família, que a mãe, não consegue contar sem chorar. “Quando minha filha entrou no 1°ano uma menininha da sala logo colou nela e viraram melhores amigas. Era um tal de brincar na minha casa ou na casa da ‘melhor amiga’, mas elas nunca vieram pro quintal nos fundos da minha casa, ou porque estava chovendo, ou frio, ou porque estava sujo já que tenho um monte de gatos. E nisso foi mais de um mês”, narra sobre o fato que marcou a menina.

“Daí certo dia a filha falou: ‘Ah! Vamos lá na minha casinha para brincar’. Consegui naquela hora ver o rosto da guria transformar. Foi instantâneo, uma mistura de ódio com inveja. Terrível de ver esta expressão no rosto de uma criança. Ambas tinham 7 anos e nunca mais vou esquecer aquela cara”, conta praticamente chorando.

Foi aí que a mão viu a mudança, também na filha. “No dia seguinte ela  veio estranha pra casa. Perguntei e ela falou que não era nada. Outro dia a mesma coisa. Outro dia perguntei para vizinha que trabalha na escola se ela viu alguma coisa diferente na minha filha, e ela disse que a viu sozinha no recreio”.

A menina então passou a vir triste, todos os dias. “Eu falava que ela tinha que se impor, mas ela me contou que toda vez que tentava se aproximar de alguém a ‘amiguinha’ pegava e chamava para o grupo dela. E quando fui na casa dessa amiga, vi que eles tinham tudo, mas tudo mesmo, menos o que a minha filha tinha de precioso: uma casa de bonecas feita especialmente para ela”.

O problema durou até que ela fez um trabalho de conscientização com a própria filha. “Ensinei ela a responder firme e ser mais segura, mas ela azucrinou por um ano, excluía da sala e falava coisas que magoavam. Nunca teve agressão física, mas o psicológico da filha ficou bem abalado. Só parou quando ela começou a responder as agressões verbais”.

Ainda assim, a mãe sentiu muita falta do apoio da comunidade escolar. “Diziam que era coisa de criança. Mas se uma criança sofre, não é mais brincadeira, passa o limite”.

O lado profissional

Franciane Vieira da Costa conheceu o ambiente de perto, e sabe que é preciso que os profissionais de educação estejam atentos. “Fui professora da Rede Municipal de Ensino por quase trinta anos, vi muitos casos de bullying e os malefícios que causam nas pessoas, trabalhamos para combater essa prática, é pessoa que sofre com bullying é como um bicho acuado, nada justifica matar, mas temos que analisar as situações de todos os ângulos”, diz citando o caso de Goiânia.

Professora, Ariana Savalla usa a própria experiência com os alunos. “Sofri bullying durante minha infância e adolescência. Cheguei a um ponto em que não queria mais ir para escola. Na década de 1990 não tínhamos um nome para dar aos constrangimentos sofridos na escola, além disso, naquela época assim como hoje, muitos educadores estão despreparados para intervir diante dessa prática”, opina.

Com os alunos, ela tenta trabalhar o assunto sempre que possível, e faz uma constatação triste. “Por fim os pais dos agressores e das vítimas infelizmente estão alienados sobre a vida e o desenvolvimento dos próprios filhos”, afirma.

Fonte: TopMídiaNews

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