‘Bolsonaro não tem a menor preocupação em combater discurso de ódio’

Jair Bolsonaro (PSL-RJ), pré-candidato à Presidência, declarou durante sabatina do jornal Correio Braziliense que o combate ao discurso de ódio é uma questão secundária no país que registrou, somente no ano passado, o assassinato de 946 mulheres e 445 homossexuais ou transgêneros por puro ódio.

A opinião do deputado parece, e é, contraditória para quem tem a segurança pública como tema central. Crimes de ódio, vale lembrar, são crimes motivados pelo fato de a vítima pertencer a determinada raça, etnia, cor, origem nacional ou territorial, sexo, orientação sexual, identidade de gênero, religião, ideologia, condição social, física ou mental. Nas estatísticas não entram vítimas, por exemplo, de assaltos. São pessoas que morrem por ser quem elas são.

Para o deputado, porém, o que atrapalha o Brasil é o “politicamente correto”, como são chamados, sempre pejorativamente, os cuidados com o uso da linguagem e as atitudes que reforcem os estigmas e a exclusão de grupos sociais já suficientemente vitimados pelo…ódio (vide as estatísticas acima). Mas essa “historinha” de ódio, prossegue Bolsonaro, é papo de radiais de esquerda.

Ligando lé com cré, fica claro por que o presidenciável não tem a menor preocupação com isso. A construção de um inimigo (no caso, minorias em busca de direitos e apoiadores “politicamente corretos” que se negam a perpetuar o extermínio) é uma antiga estratégia de apelo político, sobretudo para quem não tem ideia melhor para o país. Basta nomear uma ameaça, a quem devotamos nosso ódio, para unificar uma parcela importante da nação em torno do medo. Os judeus na Alemanha nazista, por exemplo.

O caso do Brasil de Bolsonaro é sui generis. A “ameaça” está entre nós, e o resultado não é um país unificado, mas dividido. Só que, nesse país dividido, que superou pela primeira vez a taxa de 30 assassinatos por 100 mil habitantes, uns morrem mais que outros, como mostra o Atlas da Violência 2018. Segundo o documento, sete em cada dez pessoas assassinadas a cada ano no país são pretas ou pardas.

E como o candidato a presidente – que recorrentemente estoura quando precisa responder alguma pergunta considerada inconveniente – pretende resolver a questão, além de estimular o armamento da população onde a maioria dos assassinatos acontece com armas de fogo? Estimulando o alvo de racismo, misoginia, gordofobia ou homofobia (crimes de ódio, que ele diz não ser importante) a reagir e não se comportar como “mariquinha”.

Para quem expressa tanta paixão pelos EUA, a receita de Bolsonaro pode ser observada nas instituições americanas onde convivem o armamento, o bullying e o ódio. As vítimas dos atiradores são o saldo para um país que erradicou a “frescura” citada pelo deputado. (Para não ir tão longe, o caso da escola em Realengo pode servir como testemunho).

Quem ouve o pré-candidato falar sobre “frescura” chega a esquecer que o suicídio é a quarta maior causa de morte de jovens entre 15 e 29 anos no Brasil e que uma questão central para isso é a descoberta, entre jovens, da homossexualidade, sobretudo quando eles assumem a orientação sexual perante a família e a sociedade.

Sobre questões prioritárias, não se sabe como um futuro governo Bolsonaro pretende enfrentar os índices de desempregos que atingem quase 14 milhões de brasileiros, mas para a questão da superlotação dos presídios ele parece ter um plano: terceirzar o problema.

Afinal, o problema da superlotação não é do Estado ou da Justiça que não julga ou julga mal, mas de quem cometeu crimes.

Exigir qualquer empatia do pré-candidato a um detido talvez seja muito, mas inteligência ainda é recomendável. No caso, valeria ao menos um esforço para entender o que acontece nos locais abandonados pelo Estado – por exemplo, um presídio onde superlotação é problema dos presos.

Em São Paulo, o governo que soube agir rapidamente para massacrar os 111 do Carandiru é o mesmo que hoje se apequena diante do PCC, resultado direto da organização entre criminosos no vazio deixado pelo Estado. Deu no que deu.

Por Matheus Pichonelli

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