sex. dez 14th, 2018

Ameaça contra juízes e perseguição a opositores: já vimos esse filme. Na Venezuela

Tem alguma coisa muito errada na campanha quando, a menos de uma semana da eleição, o principal assunto do país é saber com quantos jipes e soldados se fecha uma Suprema Corte.

De duas uma: ou a fala de Eduardo Bolsonaro, proferida durante uma palestra enquanto o pai, Jair, já era candidato a presidente, é uma groselha típica de quem não sabe o que diz ou ela define exatamente o que seu grupo político almeja quando chegar à Presidência.

No primeiro caso, o Brasil está prestes a colocar a faixa em um comediante do tipo Ben Stiller na Sessão da Tarde. Na pior das hipóteses, estamos prestes a empossar o pesadelo que move parte considerável dos eleitores em 2018: um regime à venezuelana.

Vamos aos fatos. Fora de qualquer debate público para expor qualquer ideia, Jair Bolsonaro tem se comunicado com seu eleitorado fiel por meio de lives e transmissões sem qualquer mediação jornalística – não jornalistas de emissoras e apresentadores de auditório amigos, mas sim profissionais indispostos a transformar entrevista em palanque ou jogo de vôlei, em que bolas são cortadas quando levantadas.

Pelo contrário: o que não falta nesta campanha é desprezo pelos profissionais da imprensa. Uns são expulsos de eventos partidários, outros ameaçados e perseguidos nas redes, tendo a credibilidade contestada em espécies de linchamento virtual. Todos são suspeitos de vestir vermelho ao primeiro sinal de contestação.

O sonho desse time é um país sem contestação. E o destino de todo mundo que estiver no caminho, segundo as palavras do próprio presidenciável, é a prisão ou a expulsão.

Sabe onde opositores são perseguidos e obrigados a buscar refúgio para sobreviver? Isso mesmo, na Venezuela.

Bolsonaro tem angariado apoio com um discurso do tipo “aos amigos, a minha simpatia; aos inimigos, a metralhadora”.  E qualquer um pode ser inimigo se não demonstra a disposição em dobrar a espinha.

A metralhadora já foi apontada contra o partido adversário, contra ativistas, contra a imprensa “vendida”.

Agora os integrantes da mais alta corte do país perceberam que a metralhadora também está apontada para eles.

Em um vídeo que circula nas redes, o filho do candidato do PSL, que acaba de se reeleger deputado com expressiva votação, afirmou que se quiser fechar o STF basta mandar para lá um soldado e um cabo. Isso, claro, se a corte resolver investigar seu pai por supostas irregularidades. Digamos arrecadação de caixa 2, por exemplo.

“Se você prender um ministro do STF, você acha que vai ter uma manifestação popular a favor do ministro do STF?”, prosseguiu.

A fala foi seguida de uma série de desmentidos e desautorizações. O vice de Bolsonaro, general Mourão, classificou a declaração de “arroubo juvenil”. Para eles, claro, é só o filho do vizinho que vai pra cadeia em caso de “arroubo juvenil”.

Se não tinha acontecido antes, a fala ligou o alerta de quem imaginava escapar da categoria “ativista” em caso de guerra ao inimigo do futuro governo.

“Atacar o Poder Judiciário é atacar a democracia”, disse o presidente do STF, Dias Toffoli.

“Essa declaração, além de inconsequente e golpista, mostra bem o tipo (irresponsável) de parlamentar cuja atuação no Congresso, mantida essa inaceitável visão autoritária, só comprometerá a integridade da ordem democrática e o respeito indeclinável que se deve ter pela supremacia da Constituição”, afirmou o decano, Celso de Mello.

“Isso é crime tipificado na Lei de Segurança Nacional. Artigo 23, Inciso terceiro. Incitar animosidade entre Forças Armadas e instituições civis”, reforçou o ministro Alexandre de Moraes.

Por enquanto, entre ânimos exaltados e ameaças de eliminação simbólica com armas imaginárias, fica o dito pelo não dito.

Mas, para quem passou a eleição evocando o fantasma da Venezuela para justificar o próprio medo, não custa procurar no Google o que fizeram os arquitetos do regime chavista ao assumirem o poder: prenderam ou expulsaram opositores, aumentaram o número de juízes na Suprema Corte, tutelaram o Judiciário e conseguiram mudar a Constituição como bem queriam.

Esse filme já foi visto antes, e ele não é uma comédia romântica da Sessão da Tarde.

Fonte: Yahoo

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