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A rotina dos vizinhos das barragens à espera de uma próxima tragédia

Daiana Moreira deixou de visitar a família, em Congonhas (MG). Seus entes queridos moram perto das três barragens do Dique do Engenho, que contêm rejeitos de minério de ferro e pertencem à Companhia Siderúrgica Nacional. “Eu vivo afastada da área de risco, mas meus parentes moram bem abaixo da estrutura e eu tenho medo de ir até lá e que aconteça um rompimento a qualquer momento. Desde o desastre de Mariana, toda a cidade vive em pânico”, conta a auxiliar administrativa, de 30 anos. O Dique do Engenho faz parte de uma lista de 22 barragens sem garantia de estabilidade, de acordo com informações da Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad). A empresa diz que a barragem é estável e diz que fez treinamento com moradores.

Moreira também teme pelos irmãos, primos e tios que trabalham na CSN e em uma empresa terceirizada ao lado da barragem. “O pior é que a cidade é cortada por um rio, e imaginamos que se a barragem ceder, os resíduos chegarão até o centro da cidade, destruindo tudo no caminho. Morreria muita gente”, diz ela.

A 172 quilômetros ao noroeste de Congonhas, em São Gonçalo do Rio Abaixo, a estudante Gabriela Macedo, de 18 anos, relata o mesmo medo. Sua cidade abriga a Mina de Brucutu, que tem duas barragens na lista de risco. “Minha família está muito assustada. Meu pai, meus tios e algumas tias trabalham na empresa. Só não saem de lá porque a mina é uma das poucas fontes de renda da cidade”, lamenta.

“É completamente aceitável que este sentimento de insegurança assole os moradores das cidades mineradoras com barragens”, diz Antônio Bicalho (PDT), prefeito da cidade, que, devido à pressão popular, viu-se obrigado a enviar uma nota nesta segunda-feira, três dias depois da tragédia de Brumadinho, aos responsáveis pela mina. Solicitou um diagnóstico com laudos técnicos sobre as estruturas e a conclusão de um plano emergencial para o caso de rompimento da barragem.

A insegurança é proporcional ao tamanho da ameaça que os cidadãos têm ao lado. Em Paracatu, conhecida como Cidade do Ouro por ter a maior mina deste metal a céu aberto no mundo —a Mina do Ouro, propriedade da canadense Kinross Gold Corporation— a situação tem causado insônia. Afinal, o local armazena cerca de 547 milhões de metros cúbicos de rejeitos —para efeito de comparação, a mina que rompeu na última sexta tinha cerca de 13 milhões de metros cúbicos. “Uma coisa desse tamanho dá muito medo na gente. Estou muito ansiosa desde sexta-feira, toda a cidade está com medo de que aconteça aqui o que aconteceu em Brumadinho. É uma situação que tira o sono da gente”, relata a moradora Vitória Oliveira, autônoma de 30 anos.”Minha casa nem está tão próxima da barragem, mas se alguma coisa acontecer, sei que a lama vai chegar até minha porta”, acrescenta.

Na Cidade do Ouro, os bairros de Amoreiras II e Alto da Colina localizam-se diretamente abaixo da mina e são especialmente vulneráveis. “São os bairros mais populosos de Paracatu. Então, se a barragem romper, a cidade inteira vai na lama”, diz Renata Veloso, auxiliar administrativa de 29 anos e vizinha da região.

A Kingross Gold Corporation informou, por meio de uma nota, que “trabalha com as melhores práticas na construção de barragens e possui procedimentos rigorosos de manutenção e monitoramento”, além de “um plano de emergência sempre atualizado”. “Em 25 anos de história, a Kinross nunca teve qualquer evento de rompimento da barragem em suas nove operações ao redor do mundo. A segurança e integridade física, incluindo a capacidade de resistir a tempestade e eventos sísmicos, são algumas das nossas principais considerações”, discorre o comunicado.

No berço na Vale

O medo se alastra até as cidades que, teoricamente, não constituem zonas de risco. É o caso de Itabira, berço da mineradora Vale —que construiu ali suas primeiras barragens nos anos 1970 e 1980—. É onde se encontram as barragens de Itabiruçu, com 222,8 milhões de metros cúbicos de rejeito; a do Pontal, com 220 milhões de metros cúbicos; a de Conceição, com 36 milhões de metros cúbicos de rejeito; e a Rio de Peixe, com 12,2 milhões de metros cúbicos de material. Todas têm estabilidade garantida pela Semad, mas isso não impede que a jornalista Tatiana Santos, moradora do município, viva assustada. “Brumadinho também não estava na lista de risco e mesmo assim aconteceu esse desastre”, argumenta. Se houvesse um rompimento, seu bairro, que está na rota da barragem, seria soterrado pela lama.

“A Vale deveria procurar todos os vizinhos da mina e informar família por família sobre os riscos. A única coisa que fizeram, no ano passado, foi instalar uma sirene de alarme do lado da minha casa”, critica Santos. Desde o ano passado, a barragem de Itabiruçu (a maior do complexo) passa por um processo de alteamento de 835 metros a 850 metros. Em abril de 2018, em coletiva de imprensa sobre o aumento da estrutura, o gerente-geral da Vale no município, Rodrigo Chaves, informou que a mineradora elaboraria planos de emergência para cada área da cidade que, porventura, venha a ser impactada por um rompimento. Os vizinhos de Itabira ouvidos por EL PAÍS negaram ter recebido qualquer informação nesse sentido. “Estamos todos apreensivos, ligados nos noticiários, com bastante medo de que Itabira seja a próxima a vivenciar um mar de lama e luto”.

A assessoria de imprensa da Vale informou que as sirenes de alarme em Itabira já estão instaladas desde 2018 e que está previsto para este ano a realização de um treinamento sobre situações de emergência.

Uma barragem em risco no meio do Pantanal

Na cidade de Corumbá, na fronteira com a Bolívia, concentram-se as 16 barragens de minério de ferro existentes no Mato Grosso do Sul, 12 delas consideras de “dano potencial alto”. A Barragem de Gregório, na Morraria do Urucu, propriedade da Vale, preocupa especialmente ao Imasul e ao Governo do Estado. Nesta segunda-feira, o secretário estadual de Meio Ambiente, Desenvolvimento Econômico, Produção e Agricultura Familiar, Jaime Verruck, ordenou seu vistoriamento. Com estrutura similar à Mina do Feijão, que rompeu em Brumadinho, a Barragem de Gregório tem capacidade de 9,3 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro, que afetariam todo o bioma do Pantanal em caso de rompimento.

“Depois de Mariana, toda a população de Corumbá ficou alerta. A Barragem do Gregório, assim como a de Brumadinho, está sem receber resíduos há três anos, e as coincidências só fizeram aumentar os temores das pessoas. Todo mundo tem noção do perigo”, afirma a técnica Luisa Pereira, que utiliza um nome fictício para evitar represálias da empresa na qual trabalha.

“A barragem da Vale está em uma área que não tem nenhuma possibilidade de contenção e se ela romper-se no meio do Pantanal, que depende dos ciclos naturais de enchente e seca, todo o ecossistema será destruído”, acrescenta a técnica. Pereira conta ainda que o território da mina conta com três balneários, onde os vizinhos da região vão tomar banho nos finais de semana. “Fica bem lotado. Há três semanas, eu mesma estava lá com minha família. Agora só consigo pensar que se um desastre acontecer em um sábado ou domingo, o número de mortos será bem maior”.

Fonte: El País

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Samuel Azevedo
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