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Crise entre Poderes segue roteiro Dilma x Cunha

O Brasil está no meio da mais grave crise institucional entre poderes desde…bom, não faz muito tempo.

Em março 2015, logo após assumir a presidência da Câmara, o então deputado do PMDB Eduardo Cunha chamou de “ilegalidade” e “golpismo” a discussão, ainda iminente, de um processo de impeachment contra Dilma Rousseff.

Nove meses depois, ele deu à luz a autorização do processo que ejetou a petista do poder. Ele seria preso e condenado na sequência, mas esta é outra história.

Fato é que o embate entre Poderes virou o novo normal no Brasil. O capítulo mais recente é o bate-boca público entre Jair Bolsonaro e o presidente da Câmara Rodrigo Maia sobre como aprovar a reforma da Previdência: se pela estrada da nova ou da velha política, seja lá o que isso significa.

A crise ganhou novo capítulo na segunda-feira, quando Bolsonaro fez circular seu desejo de pacificação, mas compartilhou, em seguida, um comentário de Alexandre Garcia com críticas a Maia.

Na fala, o jornalista dizia que o deputado andava nervoso com a prisão de seu sogro, Moreira Franco, junto com o ex-presidente Michel Temer. O ex-ministro, na verdade, é casado com a sogra de Rodrigo Maia. (Em tempo: a libertação dos emedebistas dias após a prisão escancara a fragilidade da decisão do juiz Marcelo Bretas e joga contra a própria Lava Jato no momento em que a força-tarefa media forças com a cúpula do Judiciário. Fecha parêntesis).

Ao retuitar a mensagem, Bolsonaro escreveu que grande parte da mídia busca tornar seu governo, “eleito pelo voto popular, em algo ILEGÍTIMO” (assim mesmo, em caixa alta).

Que ele foi eleito de forma legítima poucos discutem, mas chama a atenção que essa conversa tenha começado com menos de três meses de governo.

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No mesmo dia, segundo informou a coluna Painel, da Folha de S.Paulo, Maia se reuniu com Onyx Lorenzoni, ministro da Casa Civil, e prometeu que não deixaria prosperar nenhuma “pauta-bomba” (projetos que ampliam os gastos do orçamento em tempo de cortes) no Congresso, não usaria o cargo para chantagear partidos e não daria andamento a pedidos de impeachment contra o presidente.

É isso mesmo o que você leu: em menos de 90 dias, as palavras-chave que levaram o último governo à ruína (pauta-bomba, chantagem e impeachment) estão de volta à mesa, da mesma forma como surgiram há quatro anos: primeiro como negação, depois como farsa (ou tragédia, a depender de onde se olha). Se alguém gritar “não vai ter golpe”, pode buscar as pipocas.

Na época em que o fantasma do impeachment produzia a guerra improvável da paz impossível, a melhor imagem para definir a tensão era a cena clássica de “Cães de Aluguel”, de Quentin Tarantino, quando todo mundo aponta a arma para todo mundo.

De longe, quem já sentiu o cheiro da pólvora foi Fernando Henrique Cardoso. A análise do ex-presidente serve como recado: “os partidos são fracos, o Congresso é forte. Presidente que não entende isso não governa e pode cair; maltratar quem preside a Câmara é caminho para o desastre”.

É nesse cenário que Bolsonaro, sabendo o que estava provocando, fez circular a informação de que as Forças Armadas devem comemorar devidamente os 55 anos do golpe militar de 1964.

É lá, na vulgaridade das polêmicas tuiteiras e na revisão torturada do passado, que o capitão pinta e borda, para alegria das milícias virtuais, desprezo de opositores e um sentimento ainda não captado (desgosto? medo? indiferença) dos que votaram 17 por não ver outra opção.

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Deu certo: a tragédia do passado (e a negação dela) logo virou o assunto mais comentado no Twitter. A do presente é um roteiro desenhado.

Por Matheus Pichonelli

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Samuel Azevedo
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