sexta-feira, agosto 17

PM ficou ao menos um dia em poder de bandidos antes de ser assassinada

A soldado da PM Juliane dos Santos Duarte, 27, deve ter permanecido por mais de 24 horas em poder de criminosos antes de ser assassinada com um tiro na cabeça. A avaliação é da cúpula da Polícia Militar de São Paulo, depois de uma primeira perícia feita no corpo da policial.

Juliane desapareceu na favela de Paraisópolis, na zona sul, na madrugada de quinta (2) e seu corpo foi encontrado na noite de segunda (6) dentro de um carro em Jurubatuba, a 8,5 km de onde ela havia sido vista pela última vez.

O crime ocorreu em uma região que é reduto da facção criminosa PCC (Primeiro Comando da Capital), onde a própria polícia tem dificuldades para entrar.

O assassinato da PM mobilizou a corporação e resultou em intensa movimentação policial em Paraisópolis nos últimos seis dias, com incursões em becos e sobrevoos de helicópteros na comunidade -onde viviam 63 mil pessoas na última estimativa, de 2012.

A ocupação da favela pela polícia será mantida, segundo a gestão Márcio França (PSB). “Não vamos sair até o momento que tivermos pacificado a situação por lá”, afirmou Mágino Alves, secretário estadual da Segurança Pública.

Exames apontaram que a soldado morreu entre 24 h e 48 h antes da localização do corpo. Isso significa que a morte deve ter ocorrido entre sábado (4) e domingo (5).

Segundo testemunhas, ela foi levada por bandidos ainda com vida na madrugada de quinta de um bar de Paraisópolis. Teria ficado em poder dos criminosos até seu destino ser decidido, em uma espécie de tribunal do crime.

A partir do resultado da perícia, a outra hipótese da PM é a de Juliane ter recebido os disparos e ter agonizado no porta-malas do veículo por mais de um dia até morrer. Mas a possibilidade é considerada remota porque, além de tiros na virilha, ela foi atingida na cabeça. A suspeita é que a policial tenha sido morta com a própria arma, uma pistola .40.

A polícia prendeu um suspeito de participação direta no crime. As investigações sugerem a participação de ao menos mais três criminosos.

O único suspeito preso é Everaldo Severino da Silva, 45, conhecido como “Sem Fronteira”. Everaldo, que nega participação no crime, é suspeito de integrar a facção PCC e, em Paraisópolis, ter a função de ordenar assassinatos.

Segundo policiais, dificilmente alguém mataria um PM na comunidade sem ordem dos chefes da quadrilha –já que a reação da corporação seria previsível, com prejuízos ao tráfico de drogas em uma das principais “bocas de fumo” da capital paulista.

Isso explicaria a razão pela qual a PM não foi morta em um primeiro momento –os bandidos provavelmente consultaram outras instâncias.

A reação da polícia foi imediata, com operações desde quinta, sem data para terminar, com militares e civis.

Apesar da tragédia, policiais avaliaram que a PM não seguiu alguns procedimentos de segurança –por ter se colocado em um ambiente vulnerável e sacado a arma para resolver um furto de celular, em local sem apoio rápido.

Segundo testemunhas, após Juliane se identificar como policial nesse bar, frequentadores do espaço informaram aos bandidos sobre a presença dela. Quatro deles teriam aparecido, três deles com capuz, e levado a PM para um local desconhecido, após ter acertado um tiro na perna dela.

Os riscos até para os policiais em Paraisópolis foram evidenciados em novembro de 2017 pela diretora do DHPP (Departamento de Homicídios), a delegada Elisabete Sato.

“Nossos investigadores me falaram na semana passada: ‘Diretora, está difícil entrar em Paraisópolis […] Nem a PM nem a Rota estão entrando lá'”, afirmou ela, em evento sobre segurança pública.

Na época, o governo Geraldo Alckmin (PSDB) negou tal dificuldade. O secretário Mágino disse que a afirmação era “o mais completo absurdo”.

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