Uma paisagem infernal de uma das luas que orbitam Júpiter

Há quarenta anos, sondas detectaram pela primeira vez vulcões em Io, um corpo celeste repleto de crateras que cientistas julgavam morto 

Em centenas de noites claras, nos últimos cinco anos, telescópios gigantes instalados no Havaí vasculharam o espaço em busca de vulcões ativos em uma paisagem borbulhante, infernal, de uma das luas que orbitam Júpiter, Io. “Vemos inúmeros vulcões”, disse Katherine de Kleer, cientista planetária do California Institute of Technology que dirige a iniciativa. “É incrível”.

No mês passado, a equipe de Kleer publicou o seu relatório completo de cinco anos de atividade vulcânica de Io na revista The Astronomical Journal. Os dados mostram uma superfície coberta de crateras vulcânicas com erupções constantes. Alguns pontos quentes brilham continuamente, e outras áreas se iluminam com chamas repentinas que depois se apagam.

Uma erupção vulcânica na lua Io de Júpiter, vista pela espaçonave Galileu da NASA.
Uma erupção vulcânica na lua Io de Júpiter, vista pela espaçonave Galileu da NASA. Foto: NASA

Há quarenta anos, as sondas Voyager detectaram pela primeira vez vulcões em Io, um corpo celeste que os cientistas julgavam morto e repleto de crateras. Posteriormente, descobriu-se que  ela estava marcada por buracos com pontos quentes vertendo lava.

A partir dos anos 90, a espaçonave Galileo pôde olhar mais de perto, e em dezembro passado a missão Juno, atualmente em Júpiter, viu colunas de fumaça vulcânica saindo da superfície de Io. Mas estas breves visitas não permitiram que os cientistas estudassem se o crepitar de erupções segue padrões subjacentes.

Acredita-se que os vulcões de Io são alimentados pelo aquecimento do satélite por oscilações das marés, um processo semelhante à contração e expansão pelo qual forças gravitacionais atuam no interior de Io como uma bola anti-stress, enquanto a lua orbita Júpiter. Este processo pode ser a principal fonte de energia que produz a atividade vulcânica em tantas pequenas luas e planetas de toda a galáxia.

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Acredita-se também que as erupções de Io lancem material no espaço, soprando plasma por todo o sistema de Júpiter, onde ele rodopia de acordo com as linhas dos campos magnéticos. Algum material ejetado dos vulcões cai novamente sobre a superfície de outras luas, como Europa, uma das principais candidatas na busca de vida.

Disso tudo, foi possível determinar um padrão. O hemisfério atrás da lua – se imaginarmos Io como um automóvel que viaja em círculo ao redor de Júpiter, seria o para-brisa posterior – ele parece hospedar erupções temporárias muito mais brilhantes do que as da outra face. Isto poderia decorrer do fato de que a crosta de Io difere de um hemisfério ao outro, ou talvez do fato de uma única grande erupção no hemisfério posterior ter desencadeado explosões subsequentes.

Outro padrão sugestivo vem de Loki Patera, o vulcão mais poderoso de Io e uma janela através da qual pode-se espiar o interior da lua. Ele se ilumina e se apaga a cada 460 ou 480 dias, segundo Kleer. Se o Loki Patera continuar aumentando e diminuindo nos próximos anos como está previsto, este espaço de tempo se coadunará com outras variações cíclicas da orbita de Io ao redor de Júpiter – fornecendo uma relação sugestiva entre as marés mutantes exercidas por Júpiter e os fluxos e refluxos dos vulcões na superfície.

Julie Rathbun do Instituto de Ciências Planetária de Arizona enfatizou a importância do monitoramento a longo prazo. Ela disse: “Acho realmente que precisamos continuar observando isto. Cinco ou dez anos na vida de um vulcão não são nada”.

Fonte: Estadão

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Samuel Azevedo
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