quarta-feira, Fevereiro 21

Mulher de Moro deixa Instagram depois de expressar inconformismo com liberdade de imprensa

A mulher de Sérgio Moro, a advogada Rosangela Wolff Moro, é tão, vamos dizer assim, buliçosa como o marido, cujo espaço de atuação é o tribunal, mais especificamente a 13ª Vara Federal de Curitiba, um verdadeiro palco de seus heterodoxias jurídicas — e da Lava Jato — se o vivente decide levar em conta irrelevâncias como a Constituição, o Código Penal e o Código de Processo Penal, esses diplomas legais que, a levar a sério os zurros da direita xucra, existem apenas para atrapalhar a verdadeira Justiça. O PT também já chegou a achar isso quando vivia seus dias de glória. Fascistas de esquerda e de direita só divergem quanto aos fins, mas jamais quanto aos meios. Se o marido é um astro na 13ª Vara, Rosangela Wolff é uma “causona”, como diz a molecada, nas redes sociais.

Ela tinha uma página no Facebook de apoio ao marido, onde emitia algumas opiniões políticas, especialmente retransmitindo mensagens de terceiros que endeusavam o “esposo” e sentavam a pua na política e nos políticos. Decidiu fechá-la em novembro. Chamava-se: “Eu MORO com ele”. O “moro” era escrito todo em maiúsculas para chamar a nossa atenção para o duplo sentido. Ao extingui-la, temos um trocadilho a menos no mundo, o que faz bem à sanidade intelectual. Gosto, em particular, do “ele” para se referir ao marido porque é como Deus é chamado na linguagem bíblica: “Ele”. Afinal, dar um nome a Deus é reduzir o seu poder. Daí que seja o Altíssimo, por perífrase, “Aquele que não tem nome”. Como esquecer as camisetas “IN MORO WE TRUST”? Em suma, Deus! E, ora vejam, Deus chegou até a gravar alguns vídeos para a página de sua senhora.

A opiniática Rosangela Wolff Moro tinha ainda um perfil no Instagram. Nesta terça, decidiu fechá-lo também, depois de ter feito uma malcriação com a imprensa.

Who’s afraid of wolf?

Wh’os afraid of Rosangela Wolff?

Na peça de Edward Albee, sobrava um “o”: “Who’s afraid of Virginia Woolf?”

Nem todo trocadilho lustra a infâmia, rsss.

Doutora Rosangela sempre deu ampla divulgação nas redes sociais às mesuras que a imprensa costuma dispensar ao marido. Afinal, como sabemos, os jornalistas “trust in Moro” , siga ele a lei ou não. “Trust in Moro”, condene ele com provas ou sem provas. “Trust in moro”, mas nem tanto na Constituição, no Código Penal e no Código de Processo Penal. Quando o juiz, então, trata advogados de defesa aos tapas e pontapés, a crença atinge aquele ar de devoção de Santa Teresa de Ávila diante do Cristo. Já li textos em que os colunistas consideram insultuoso que o defensor de um réu conteste o juiz.

Pois bem! Rosangela Wolff estava acostumada com a imprensa como um verdadeiro cordeiro do seu Deus. Bastou que esta noticiasse que seu marido recebe auxílio-moradia, embora more com ela num confortabilíssimo apartamento próprio, e a senhora Wolff passou a ver os jornalistas como um bando de lobos. Em sua conta no Instagram, publicou a imagem de um jornal amassado embrulhando um cacho de bananas. Desfocado, vê-se o logotipo de Folha de S. Paulo, veículo que primeiro publicou a informação.

E dona Wolff não perdoou os cordeiros da véspera — refiro-me à imprensa com um todo — e mandou bala:
“Imprensa… Para o bem e para o mal. Separam o joio do trigo e publicam o joio”.

Entendi. A imprensa é para o bem quando acredita no seu marido, quando o endeusa, quando o vê como o Galaaz do Santo Graal, quando dá de ombros para suas arbitrariedades. Ao contrário: até as elogia. E é para o mal quando revela que o juiz participa de uma mamata — ainda que permitida pela lei vigente, essencialmente imoral — que custa aos cofres públicos R$ 1.6 bilhão por ano. Considerando o tempo de vigência do auxílio-moradia para todos os juízes e membros do Ministério Público, não há corrupção, contra a qual Santo Sérgio Morus luta tão bravamente, que ao menos se aproxime da conta multibilionária.

Parece essa uma questão menor, em meio a tantas coisas relevantes? Parece, sim! Mas não é! Seja pelo valor, seja por aquilo que simboliza. Temos hoje um Poder da República que, por intermédio de suas associações de classe e de alguns de seus astros — e juiz não deveria ser popular nem no prédio em que mora —, deixa claro que não aceita ser submetido aos mesmos controles e ao mesmo escrutínio democráticos a que estão sujeitos o Legislativo e o Executivo.

Quando o marido daquela que mora com Deus divulgou, ao arrepio da lei, conversa da então presidente da República, a imprensa emprestou-lhe o megafone. Dona Wolff certamente considerou que aquilo era o mais puro trigo. Moro levou um pito de Teori Zavascki por causa da ilegalidade. Mas o episódio voltou a incendiar as ruas, que andavam de mornas para frias. E isso é apenas um fato. E eu não tenho problema nenhum com os fatos. Como é fato que Dilma cometeu crime de responsabilidade. Como é fato que ela não caiu só por isso. Como é fato que não teria sido impichada se tivesse conseguido manter ao menos um terço de apoio na Câmara ou no Senado. Fatos, fatos, fatos. Quem tem medo do lobo ou dos fatos?

Eu não tenho.

Associações de juízes e togados ilustres, como Manoel de Queiroz Pereira Calças, novo presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo, veem nas notícias sobre auxílio-moradia uma espécie de conspiração contra o Judiciário. Ou, como diria Dona Wolff, “a imprensa para o mal”.

As reações à postagem da doutora não foram nada lisonjeiras, e ela resolveu pôr fim também à sua conta no Instagram. Fez bem!

A cobertura sobre o auxílio-moradia dos nababos revelou lobos insuspeitados e ajudou a expor a nudez de certas moralidades.

Por Reinaldo Azevedo

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